quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Por que contar estórias e memórias? E como comecei no Metal.




Por Marcos Garcia

"I used to be such a sweet, sweet thing 'til they got a hold of me
I opened doors for little old ladies, I helped the blind to see

I got no friends 'cause they read the papers
They can't be seen with me and I'm gettin' real shot down
And I'm feeling mean..." 

(ALICE COOPER - "No More Mr. Nice Guy") 


É uma pergunta que muitos fazem: por que, muitas vezes, falamos de nós mesmos, de nossas histórias de vida (sim, pois falamos de nossa jornada no mundo, logo, é com “hi” mesmo). No meu caso específico, tenho necessidade sobre falar de mim, expor coisas que vi e vivi, ouvi e li nesses 47 anos de vida, e pretendo que elas sejam todas ligadas ao Metal. Faço isso porque muito na minha vida pessoal, acho que uns 80% do que vivi, bem como as grandes conquistas e mudanças foram todas oriundas do estilo.

Vamos a uma, contar quem eu sou em poucas linhas. Vou tentar resumir bem.

Me chamo Marcos, nasci em 1970, no governo do General Médici. Como nasci em uma cidade de Magé chamado Andorinhas, que é bem pequena, tive uma infância relativamente tranquila.

Quando ouvem/leem que um saudosista fala do pouco que tínhamos, mas do muito que nos divertíamos, acreditem, é fato. Qualquer folha de papel virava um aviãozinho, qualquer pedaço de madeira era um barquinho (Andorinhas possui rios, e minha casa tinha fundos para um deles). Máscaras de papel, pedaços de pano como capas, tudo isso eram fontes de diversão comuns. Quando olho os celulares, computadores e vídeo games de hoje, fico pensando demais no tipo de futuro que as crianças terão (especialmente aquelas que ganham tudo isso para justificar a ausência dos pais).

Meus pais trabalhavam fora: o velho em uma oficina autorizada da Volkswagen em Magé, e minha mãe na fábrica de tecidos de Andorinhas. Sou de raízes bem humildes, descendente de italianos que vieram ao Brasil para trabalhar na lavoura, bem como de espanhóis (meu avô paterno, Teóphilo, nasceu em águas internacionais, na vinda da Espanha para o Brasil), logo, já sabem que sou filho de pessoas bem conservadoras. Eu mesmo fui conservador por muitos anos, mas creio que a faculdade e a pós-graduação foram mudando isso gradualmente.

Fui uma criança que teve problemas de saúde desde muito novo, os mais comuns possíveis, exceto quando tive hepatite 2 vezes, aos 7 anos. A segunda vez dessa bosta foi na semana que antecedia o carnaval de 1978, e fiquei frustrado por não poder me fantasiar. Pode-se dizer que comecei a apurar meu lado Nerd nessa época, pois parado em casa, via muita TV (que realmente exibia programas educativos, não o lixo de hoje), lia quadrinhos demais, e usava velhas revistas de colorir. Como era comum brincar nas ruas de Andorinhas à noite, quantas e quantas vezes usávamos dentaduras de vampiro e capas de tecidos bem baratos. Ao mesmo tempo, aprendi a ler vendo TV, pois a Vila Sésamo ajudou muito nisso. Foi determinante em minha vida, acreditem, pois passei a ler quadrinhos, e adorava títulos de horror. É, conheci as revistas de Drácula, Lobisomem e outros quando eu muito garoto, e adorava. Talvez isso explique como comecei no Metal, anos mais tarde.

Eu comecei a ouvir Rock na mais tenra idade.

The Beatles - Please, Please Me, outro que ouvi muito.

Via músicas de Raul Seixas e outros na TV (vi todos os filmes de Roberto Carlos em sua época de Jovem Guarda), e todos os filmes dos Beatles quando era muito, muito criança, tanto que assisti à primeira exibição de “Yellow Submarine” sem nem estar na escola ainda (comecei a estudar em 1977). Pode-se dizer que estas são as raízes do Rock em minha vida, mas não nego que vivia nas matinês de Disco Music na sede do Andorinhas Futebol Clube entre 1978 (quando já estava curado da hepatite), e adorava a música Soul americana, bem como os Sambas enredo da época, a MPB (como eu era muito criança, não entendia PATAVINAS de política, e foi melhor assim).

The Beatles - A Hard Day's Night, um dos primeiros disco de Rock que ouvi.

Por volta de 77, 78 ou 79, alguém em casa comprou uma vitrola pequena. Minhas irmãs ouviam muito Beatles, e tinham dois discos “Please, Please Me” e “A Hard Day’s Night”. Quando estava sozinho em casa (isso acontecia muito), detonava ouvindo “Tell Me Why”, “A Hard Day’s Night” e outras. Óbvio que isso me custava esporros por ligar a vitrola sozinho e pela música alta. Mas criança ouve e apanha aqui e esquece ali (o apanha nem tanto, pois marca a pessoa por uma vida).

Mudei-me para a cidade de Magé em 1980, mudei de realidade, sofria bullying, perdi interesse na escola, briguei na escola... Mas o que é anormal nisso era a distorção que a diretora da escola fazia. Fui tachado do doido, e esse estigma em Magé me persegue até hoje. Ele e o maldito apelido “Pirambóia”, que já estou pedindo encarecidamente que NUNCA USEM quando falarem comigo (eu posso nunca mais olhar na sua cara depois de deixar isso claro). Eu o odeio por razões simples, que explico:

A professora da Quarta Série, Altamira, queria ilustrar um exemplo de conjunto vazio, perguntando se existia algum peixe que vivesse fora d’água. E lá fui eu, que já lia livros de Sétima e Oitava Séries, responder o nome do bendito peixe. Nunca mais tive sossego na vida, e tenho que suportar isso até os dias de hoje. A professora não acreditou, no outro dia eu levei o livro com a informação. Como sempre, a escapadinha: “respira, não vive”. Se fosse hoje, eu teria uma penca de exemplos e uma argumentação mais sólida, mas sabem como são os professores da base daqueles tempos...

O bullying começou ali, e como eu era uma criança estressada (lembrando que meu genitor descontava o estresse nos filhos por berros e outros), respondia com violência. Óbvio que existia um complô entre os malandros desse inferno em que moro, e eles se revezavam. Eu todos os dias na direção, mas não tinha paz. Óbvio que a diretora, amiguinha de meu genitor, contava tudo para ele dizendo que eu não era “normal”. Graças aos deuses que não o sou “normal”, pois me sinto muito acima disso. Sim, me sinto superior aos “normais”, pois já que o convívio era ruim, me sobrava o isolamento, meus filmes e quadrinhos. No fundo, sou um tipo de misantropo estranho, seletivo, que odeia os humanos “normais”. Meus amigos de infância e adolescência não se encaixariam nesse padrão, apesar de conviverem bem em Magé. Aliás, o conceito de “normais” me custou uma overdose de Valium aos 12 anos, exatamente no dia 22/04/1983, uma sexta-feira chuvosa e fria. Mas isso eu falo em detalhes depois (se quiserem saber disso, óbvio).

Iron Maiden - Piece of Mind, o disco que é o marco zero de minha vida no Metal.

O Metal vai entrar na minha nesse mesmo ano, quando vi a capa de “Piece of Mind” do Iron Maiden. Eu havia ido ao mercado Rosal, próximo de minha casa, e na sessão de discos, dei de cara com aquele zumbi em camisa de força. Aquilo me marcou de tal forma que até hoje vejo os ecos. Não ouvi o disco, mas fiquei impressionado e parava sempre para olhá-lo. Vi o show do Kiss na TV, pois a Globo passou em uma tarde de sábado, fora um pessoal ter dublado a banda em um show de talentos da escola naquele ano.

Tudo bem, eu sei que é pouco, mas minha entrada foi bem gradual.

Na época, ainda ouvia Michael Jackson e músicos de Soul e Pop, tanto daqui quanto de fora, mas me tornarei fã exclusivo de Metal em janeiro de 1985. Advinhem quem foi o culpado?

Sim, eles mesmos, a Donzela de Ferro me pegou de vez, pois além do show que a Globo (de novo ela) transmitiu alguns pedaços, ainda teve um programa do BBVídeo que o Maiden disputou a melhor de 3 dias com o Menudo (a música foi aquela balada chata “If You’re Not Here” que dominou o ano de 1984). O Maiden perdeu de 2 a 1, mas ganhou mais um fã. Tanto que em Maio daquele já distante e tenebroso 1985 (numa opinião pessoal sobre minha própria vida), ganhei meu primeiro disco, "Powerslave".

"Powerslave", meu primeiro disco de Metal.

Para um primeiro texto, está de bom tamanho. Peço que perguntem, falem, se expressem, pois terei de explicar. Apenas seja educado comigo como eu procuro ser com todos.

4 comentários:

  1. Cara! Beatles é uma banda q ouço muito! Ótima referência para qualquer criança (como foi pra vc). Raul Seixas tb é referência pra muita gente, sem falar no Robertão das antigas... Agora, Iron Maiden?!!? É FANTÁSTICO, meu velho! Como é!!! Curiosamente, o primeiro play da banda q ouvi foi o "Piece of Mind"!!! ...
    Ah! E sofrer bullyng foi foda!
    heheheheheheeeee
    Eis um ótimo texto, com boas memórias e grandes citações, Marcão! Meus parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, mas estranho que só fui conhecer a fase mais psicodélica do Beatles bem mais tarde.
      Hoje em dia, idolatro o "Sgt. Pepper", que acho fantástico.

      Excluir
  2. Você esqueceu de contar da noite Metal e Rock'n'Roll, que eu promovi no Mageense. Foi nesse dia que eu descobri que você também curtia Rock. Você chegou, me viu, fez o sinal do chifre com a mão direita, bateu na altura do coração e eu retribuí, nunca vou esquecer esse episódio. É meu amigo, assim como você, eu também era um clichê ambulante, gordinho, nerd, "metaleiro" e fã de quadrinhos... Só que não tenho coragem de expôr essas feridas como você faz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Luiz.

      Vai chegar a hora de falar, pois quis resumir um pouco.
      Eu exponho as coisas de uma forma que não ocorram os mesmos erros com outras pessoas que ocorreram comigo.
      Tudo é ensinamento.

      Abraços, :)

      Excluir

O radicalismo e eu - A vantagen de ser livre

Por Marcos Garcia   Como já disse, comecei a ouvir Metal na primeira metade dos anos 80, e em 1985, comecei a me dedicar ao estil...